Relançamento de Drunna é um Sopro Contra a Censura

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Lançamento de Drunna atiça colectivos feministas em favor da "reflexão" contra a obra
Texto de Paulo Francis, adaptado

Quando lançou Drunna, em 1985, Paolo Eleuteri Serpieri queria por cobro à censura e pudores vigentes na época. Ele viu a AIDS destruir muitos de seus próximos e imaginou uma sociedade futurística com homens e mulheres deformados por uma doença horrível. Drunna é encarnação máxima do erotismo, em uma realidade pós-apocalíptica onde a destruição da natureza e o terror químico legaram uma infecção letal à humanidade, transformada em um valhacouto de monstros mutantes horrendos.

Drunna, a protagonista feminina, é a concepção da candura num mundo depravado em que seres bestiais praticam sexo como se somente isto tivesse-lhes restado. Neste universo, ela, como muitos protagonistas, sofre revés e até violência sexual, como também faz sexo por prazer (maioritário), contudo sobrevive como uma flor de pureza única em um sítio onde toda a carne é maculada pela peste e ninguém tem qualquer bússola moral: a praga que assola a sociedade futurista de Serpieri reduz o ser humano aos seus instintos hedonistas mais básicos e a um apego desesperado pela sobrevivência. Para além disso, o sexo explícito de Drunna é veia pulsante para atrair leitores mais séquitos por tal conteúdo.

Está é a leitura da obra de Drunna, que está a ser lançada em uma colecção de três volumes pela Pipoca e Nanquim Editora. Mas já há quem enxergue na reedição um apelo a "cultura do estupro". Sim, nestes tempos melindrosos a incapacidade em diferir ficção de realidade é o próprio conceito da estupidez humana e cada grupo representativo da sociedade esforça-se numa luta insana, em competição, para ver quem censura com mais ênfase e posa de mais engajado e bom moço. Senão, vejamos este texto panfletário de Ticiano Osório para o Zero Hora:

"seus desejos são fantasias de um homem sobre o desejo feminino; o erotismo está atrelado à ameaça, ao abuso, à agressão, ainda que os traços delicados sugiram outra coisa. São meros objetos sexuais, que podem ser ligados ou desligados por um botão – vide O Clic. Têm tão pouca voz, que acabam literalmente apagadas"

Primeiro que a Drunna não é obra que versa acerca do abuso feminino, ou contra as mulheres. Os seres com quem relaciona-se estão longe de serem homens... São bestas e animais. E na maioria das vezes, ela o faz por vontade própria. No universo de Drunna, homens são grotescamente mortos, castrados (sim, literalmente) e vítimas das piores moléstias. Acreditar que, nesse contexto, Drunna é uma obra sobre violência sexual, no sentido de ovacioná-la, é pura vigarice.

Serpiere notabiliza-se pela narrativa sequencial e arte estupenda

Para mostrar o quanto "honesto" é o autor ele entrevista pessoas com pontos de vista diferentes acerca da obra, fãs e não fãs... Só que não! Osório só entrevista  pessoas adeptas da tese de que Drunna é produto da Cultura do Estupro. É mais vigarice: aqui ele entrevista uma autora do MinasNerd, popular página feminista do facebook, Dani Marino:

A violência contra a mulher é algo tão naturalizado em nossa sociedade, que mesmo esse tipo de HQ tem muitas leitoras entre seu público, e eu fui uma delas há mais de 20 anos. Veja: em uma cultura que tenta nos definir como santas ou putas, ler Druuna quando se é nova e não se tem qualquer conhecimento sobre questões de gênero ou feminismo era algo transgressor. [...]

O autor do texto poderia entrevistar Luiz Santiago, do Plano Crítico, que teceu crítica positiva a obra, mas prefere imolar-se em sua sana lacradora e chama outra profissional adepta da tese de que Drunna é parte da cultura do estupro, a artista Montserrat Montse, do Studio Seasons, para quem Drunna é "problemática em relação à cultura do estupro".

Não satisfeito em uma matéria entupida no viés de confirmação - uma tendência do jornalista isentão de só entrevistar "especialistas" com quem concorda- Osório vai aporrinhar os editores da Editora Pipoca e Nanquim com três perguntas lacradoras e não é recebido pelos editores por motivos óbvios (há um ditado que versa sobre "não bater palmas para louco"):

GaúchaZH pediu, reiteradamente, respostas de Daniel Lopes, um dos editores da  Pipoca & Nanquim, a três perguntas, mas não obteve sucesso.

Ele finaliza a matéria panfletária com um texto lacrador da autora do MinasNerds

O que eu e muitas mulheres gostaríamos é de sermos ouvidas, assim, alguns editores entenderiam que publicar majoritariamente certos tipos de produções em detrimento de outras que não são tão violentas ou que não reforçam uma cultura que nos estupra e nos assassina diariamente seria mais "empático" da parte deles. Quando publicações como Druuna são publicadas e tão enaltecidas, ao mesmo tempo em que narrativas mais diversas são consideradas menos atraentes pelos critérios desses editores (majoritariamente homens brancos de classe média e heterossexuais), o que entendemos é que eles estão dizendo que nossa integridade física e emocional pouco importa.

Nem se precisa dizer que a Marvel e a DC ouviram vocês e lançaram séries e mais séries com personagens femininas lacradores e o resultado foram fracassos em cima de fracassos. Não são publicadas certos tipos de produção em detrimento de outras, muito pelo contrário, a censura justiceira avança a passos largos, proibindo até decotes de personagens femininos. Dizer que Drunna reforça a cultura do estupro é tão estúpido quanto afirmar que Rambo reforça a do assassínio. É o velho ardil engajado de culpar o mundo pelos erros individuais dos marginais.  Nem vou falar do final da entrevista em que ela afirma que os editores são "homens brancos de classe média e heterossexuais" (e por isso lançam Drunna), quando boa parte das feministas são... mulheres brancas de classe média. Haja vista que a hipocrisia encontra terrenos férteis em um ambiente condescendente, como são as redações dos jornais, onde todos concordam contigo, falar bazófias e repetir jargões é um  grande negócio. Quando convém,  claro.

Para você, amigo ou amiga leitora, que gosta de quadrinho futurista e erótico: compre Drunna e esqueça os floquinhos de neve. Eles são o motivo do fracasso deste mercado.

COMPRAR NA PRÉ-VENDA DA AMAZON: https://pipocaenanquim.com.br/produto/druuna-vol-3-caixa-da-colecao/

Fontes:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2019/07/druuna-e-a-estetizacao-do-estupro-polemica-hq-esta-de-volta-ao-brasil-cjxko335c02ma01pkf1pmnm9s.html

https://www.planocritico.com/critica-druuna-morbus-gravis/

 

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