Paulinho Vilhena e Cleo Pires: Como brincar de ser deficiente...

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Depois das feministadas contra a "cultura do estupro", onde mulheres usariam a capa de Marie Claire em que milita pelada, para se defenderem dos bandidos (suposta e ironicamente), Cleo Pires e Paulo Vilhena, atores globais perfeitinhos, talhados à dedo por papai do Céu e inspirados em Vênus e Apolo, agora posam para a campanha "somos todos paralímpicos".

Para dar maior visibilidade aos paratletas e mostrar sua relevância para o esporte nacional, Cleo Pires  e Paulo Vilhena aceitaram o convite para serem embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro e estrelarem a campanha Somos Todos Paralímpicos.
Cleo encarna a deficiência de Bruna Alexandre, paratleta do tênis de mesa, e Paulo a de Renato Leite, da categoria vôlei sentado.
Concebido pelos atores com o apoio do Comitê Paralímpico Brasileiro e dos atletas e desenvolvido pela agência África, com direção de arte de Clayton Carneiro, fotografia de André Passos e beleza de Carol Almeida Prada.
Primeiro, uma tendência desse mundo politicamente correto é expandir os conceitos: somos todos deficientes, somos todos gays, somos todos da mesma raça, etnia etc.  No caso brasileiro a coisa já vai no sentido oposto: brancos são ruins e não têm lugar de fala, hétero é opressor, todo homem é estuprador, mulher magra não existe e é um padrão imposto pela sociedade de consumo (o que existe são as obesas apenas, vendidas como a "mulher real" pelo Huffington Post e Catraca Livre), mesmo que existam dezenas de fenótipos femininos. E isso tudo já é política pública, infelizmente.

Nesse caso específico, o da deficiência, é claro que não somos todos classificados como deficientes. A deficiência é uma característica oriunda de um grande trauma na vida: uma amputação, cegueira, traumatismo craniano, doença congênita, acidente de moto, lesão medular, genética etc.
Considera-se Pessoa Portadora de Deficiência (PPD) aquela que apresente, em caráter permanente, perdas ou reduções de sua estrutura, ou função anatõmica, fisiológica, psicológica ou mental, que gerem incapacidade para certas atividades, dentro do padrão considerado normal para o ser humano. (http://www.ibc.gov.br/?itemid=396)
Entendeu? Ser deficiente não é bom e não é fácil. A locução adjetiva utilizada nos novos tempos, "pessoa portadora de deficiência", não melhora a condição de vida da maioria empobrecida desse contingente populacional: Sem próteses de qualidade, a maioria muito cara (e aí vai um filão de gente que explora isso, especialmente, ligada ao governo), com dificuldades motoras para lidar com algumas funções do dia-a-dia, com dificuldades extremas nos relacionamentos afetivos, dores crônicas insuportáveis devido a lesão dos plexos nervosos nociceptivos - com tratamentos caros e inacessíveis.

É muito bonito para Cleo Pires e Vilhena, rasos como um pires, posarem com essa campanha de que somos todos deficientes (será que doaram o cachê?), uma tentativa de comparar, por exemplo, uma miopia a uma cegueira, uma fratura de stress a uma amputação, uma deficiência de vitamina B12 a uma paraplegia e assim dizer que todos têm alguma deficiência, quando não têm. Temos limitações, mas a deficiência, só quem tem, conhece: quem pega ônibus e sobe naquela plataforma adaptada para paraplégicos em cadeira de rodas ("cadeirantes") e leva 10 min para conseguir embarcar, quem é abandonado pelo paceiro, os pais que cuidam das vítimas, a solidão, a ansiedade e o desgosto com a vida. Os deficientes mais pobres e com limitações maiores, que mais sofrem.

E as estruturas de acessibilidade? Mal projetadas, prejudicam os deficientes e os íntegros, ocupam espaço demais, são desarmoniosos e têm usabilidade horrível.
"Participar da campanha foi uma honra para mim. O clima no estúdio era de total felicidade e orgulho. Paulinho Vilhena e Cleo Pires fizeram um lindo discurso antes de começarmos a fotografar que emocionou a todos os envolvidos. E para quem nao(sic) sabe, a ideia toda da campanha foi da embaixadora das Paralimpiadas, Cleo Pires. A gente sabia que seria um soco no estômago, mas estavamos lá por uma boa causa, afinal, quase ninguém comprou ingressos para ver os jogos paralímpicos", disse Clayton Carneiro, diretor de arte da Vogue Brasil, sobre a empreitada.
Soco no estômago, mesmo. A êmese está rolando solta aqui. É um negócio de puro mau gosto. Colocassem atletas deficientes simbolizando superação, sem fugir da realidade dura, teriam mais apoio popular. Colocar esses dois em plugsuits horrendos e poses frontais de bonecos "comandos em ação", é o extremo da demência humana em que o politicamente consegue chegar. Até a foto mais razoável, onde Cleo está fingindo que seduz Renato Leite no sofá, atleta amputado, é o cúmulo da desfaçatez: Cleo coloca a mão sobre o peito dele com a cabeça erguida, como se o evitasse, enquanto o mesmo olha para a câmera, numa leitura visual de desconforto claro.


Fotos: Cléo Pires e Renato Leite na Vogue de setembro (Foto: André Passos; direção de arte: Clayton Carneiro)
Fonte: http://vogue.globo.com/moda/moda-news/noticia/2016/08/somos-todos-paralimpicos-campanha-com-cleo-pires-e-paulinho-vilhena.html

2 comentários:

  1. Parece piada.
    Representatividade bem falha essa. Em vez de clicarem os próprios paratletas, colocam rostinhos famosos no lugar. É mais do mesmo: a pessoa com deficiência sem vez pra sua voz, sem protagonismo, e gente que não tem nada a ver com a história servir de lip sync roubando o espaço alheio.

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  2. Ao dar enrevista fumando maconha Cleo Pires mostrou o que a esquerda
    caviar tem na cabeça!

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